Ideias Soltas
"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem".
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas
Experiências e Pensamentos que quero guardar.
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*Nada aqui é escrito com ia.

Oie
Aqui vou te contar um pouco da minha história, quem sou eu e de onde eu vim.
Quem sou eu e minha história
Já escrevi e apaguei o começo dessa descrição umas cinco vezes. Como pode uma pergunta simples dessa desencadear tanta coisa? Não vou entrar em nenhuma discussão filosófica sobre isso, mas é curioso como a gente tenta se descrever de várias formas: pela nossa profissão, pelo que nos formamos pra fazer (nem sempre a mesma coisa), desmerecendo nossas conquistas pra ninguém achar que somos especiais demais, sei lá. Enfim, vamos pro básico.
Sou uma mulher, cis, parda (tenho questões, mas enfim). Tenho 32 anos, carioca, brasileira, viciada em estar na natureza e em tudo que é natural, vegetariana há uns 15 anos. Não sou e nem gostaria de ser mãe biológica, já vivi no Uruguai por que queria morar fora, sei falar espanhol e ingles fluentemente, sou feminista e de esquerda. Amo e me dedico muito a minha família, sou filha do meio - tenho um irmão mais velho e uma irmã mais nova. Tive pai e mãe presentes durante toda minha infância e adolescência e acredito que eles são de verdade os melhores que pode existir. Tenho uma quantidade limitada de amigos que eu amo e faria tudo por eles.
Minha história de vida é longa-confusa e curta-simples ao mesmo tempo. A versão curta-simples é que eu me formei na faculdade porque tive privilégios de classe que permitiram isso. Achei que ia seguir um caminho em linha reta, mas mudei de direção várias vezes. Hoje profissionalmente ganho dinheiro com uma coisa que nunca imaginei e recentemente passei a considerar construir meu sonho usando o meu momento atual pra proporcionar isso.
A versão longa-confusa vai aqui:
Sou uma pessoa essencialmente corajosa, que vivo pelo lema "caminho se conhece andando" e sempre tive apoio da minha família (financeiro e moral) pra testar os caminhos que eu achei interessantes. Fui criada numa família de classe média carioca. Meus pais - descendentes de famílias pobres e nordestinas - estudaram muito, passaram em concursos públicos e proporcionaram à mim e meus irmãos uma vida muito mais estável que a maioria pode ter.
Dito isso, minha primeira formação já foi meio exótica - no sentido de que todo mundo com senso já sabia que ia ser difícil seguir carreira e ganhar o suficiente pra me sustentar com ela. Me formei em Geografia, fiz pós e mestrado em Geologia. Eu AMO de paixão tudo relacionado a essas ciências até hoje. Acredito fielmente que, caso a ciência fosse mais valorizada no Brasil, eu teria seguido nessa carreira e sido feliz. Talvez não, vai saber. Tive o privilégio de me formar em universidades federais do Rio e lá eu convivi com tanta gente diferente que só ali eu consegui entender que o mundo era muito maior que o meu bairro.
Com isso já sedimentado e depois de terminar o mestrado, entendi que aquela carreira não era pra mim e comecei a buscar alguma outra trilha pra caminhar. Nessa época eu fazia muitas travessias (de trilha mesmo, nos Parques do Brasil todo) e comecei a ter uma filosofia de que, querendo, eu podia chegar em qualquer lugar. Bastava caminhar.
Então mudei de direção mais uma vez. Terminei meu mestrado estudando umas coisas que se chamam Geoturismo e Geoconservação. Achei que fazendo um curso técnico de Guia de Turismo especializada em Áreas Naturais eu encontraria uma forma de ganhar dinheiro e me sustentar fazendo o que eu amava: transmitir a ciência de uma forma não convencional e estar na natureza como forma de trabalho. Spoiler: não deu certo.
Terminei meu curso e logo em seguida um inominável foi eleito presidente no nosso país. Pela campanha que ele apresentava eu sabia que os próximos anos tentando trabalhar com educação e natureza seriam muito difíceis. Então, assim que saiu o resultado do segundo turno, eu comprei uma passagem só de ida pro Uruguai. O por quê? Nem eu sei pra ser sincera. Nunca tinha pisado lá, não conhecia o país e não falava mais que algumas frases em espanhol. Mas era pra ser.
Morei em Montevideo por três anos e meio mais ou menos. Conheci gente muito diferente. Aprendi a ver tudo de um outro jeito. Aprendi sobre a solidão e como lidar com ela. Fiz amigos, não muitos. Fiquei fluente em espanhol e comecei um curso de francês que mal lembro. Consegui um trabalho graças a um casal de amigas muito queridas (que hoje vivem na Austrália). Comecei a trabalhar com TI, quando nem sabia nada sobre isso. Passei uma pandemia inteira preocupada com os meus no Brasil, enquanto lá já tínhamos nos recuperado mais rápido - Viva às vacinas! Levei minha mãe pra morar comigo depois do divórcio dela e do meu pai. Vivi lá com ela e as minhas vira latinhas (que foram de carro) por mais um ano.
Mas cansei e decidi voltar. O Uruguai é bom, mas não é o Brasil. A saudade falou mais alto. Voltamos e ficamos um tempo sem rumo até decidir mudar pra uma cidade litorânea no Rio, na Região dos Lagos. Ali passamos pelo momento mais difícil das nossas vidas até hoje: minha mãe descobriu um cancer e precisamos fazer uma cirurgia de emergência. Era só eu e ela no dia e eu segurei meu choro até meu pai chegar no hospital, aí eu desabei. Foram dias terríveis. Meus irmãos e família estiveram lá, mas era inviável ficar longe de todo mundo - a maioria da nossa família vive em Nova Iguaçu ou no Rio. Voltamos pro Rio pra ficar mais perto dos meus irmãos e ela fazer o tratamento dela. Hoje ela tá bem melhor, mas ainda lutando. Vai dar tudo certo!
Hoje vivo aqui, trabalhando com o que comecei no Uruguai, um pouco mais avançado. Vivendo bem, perto dos meus amigos e da minha família. E depois de tanta coisa, um pouco mais inclinada a escrever sobre as minhas experiências e pensamentos, mesmo que ninguém leia.